DIFICULDADES PARA RECÉM-FORMADOS



Lendo um texto sobre o ‘ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90’ escrito por Carlos Benedito Martins (Professor do Departamento de Sociologia e Diretor do Núcleo de Estudos sobre o Ensino Superior da Universidade de Brasília) em 2000 para utilizar como fonte de dados para uma pesquisa sobre a ‘nova classe C’ e o impacto que essa nova classe trouxe para os números do ensino superior no Brasil, o consultor de carreiras Edson Félix conseguiu colher números impressionantes, na maioria deles positivos, como o aumento da classe C nas universidades e o aumento das mulheres se formando nos mais diversos cursos de graduação, mas, a partir de um numero muito curioso percebeu algo muito interessante para se estudar, porém, um tanto negativo: existe uma pesquisa recente que aponta que mais de 50% dos pessoas que se formam estão atualmente exercendo funções que não estão ligadas a sua graduação.

Edson exemplifica exatamente isso, a cada 3500 graduados em engenharia apenas um atua efetivamente na área. Isto poderia não trazer um impacto tão grande para o mercado, uma vez que as pessoas que estão se formando, estão se estabilizando no mercado por conta de seu currículo acadêmico, ou seja, de certa forma a sua graduação serviu para disputar cargos no mercado, o grande problema é que isso está causando um desequilíbrio em algumas áreas e, embora o mercado brasileiro esteja recebendo a cada ano mais profissionais com nível superior completo, está tendo dificuldades em encontrar profissionais gabaritados em algumas áreas.

O consultor ainda exemplifica dizendo que “existem cargos em áreas como vendas e marketing, engenharia e direito que chegam a oferecer R$14.000,00 mil reais para um diretor de operações (na área de engenharia já citada antes), mesmo que o profissional não tenha experiência na função, um analista de marketing, que é um cargo de iniciação para alguém que quer investir na área recebe 3500 reais mensais mais benefícios, muitas vezes, sem a necessidade de apresentar experiências anteriores e, em cinco anos pode estar em uma empresa de médio porte ganhando R$ 25.000,00 como Gerente Geral, o mais interessante entre todos estes dados é que as empresas estão reclamando de falta de mão de obra especializada nestas e em outras áreas, algumas passaram a recrutar profissionais já aposentados para tocar projetos com urgência”.

Mas, como é que não há pessoas especializadas se estamos formando cada vez mais profissionais no país? E os profissionais não estão investindo em suas áreas de formação por qual motivo? Por que a classe C, que é a que mais se forma atualmente está presa a uma renda per capita de no máximo R$ 1.390,00 se existem oportunidades de em poucos anos o profissional conquistar um ganho mensal superior a R$ 10.000,00?

Pensando nas respostas de todas essas perguntas, Edson esclarece e aponta o primeiro passo para uma futura solução. “Verifiquei que esse processo de crescimento da economia já aconteceu em vários países, e isso parece obvio, só o que não parece obvio, é que enquanto países como os Estados Unidos sofreram essa mutação em cerca de 50 anos, o Brasil se tornou um pais emergente e de economia admirada por países de primeiro mundo em cerca de 10 anos, ou seja, o Brasil só precisou de um quinto do tempo de outros gigantes do mundo para sair de um país financeiramente pobre para um país de economia sólida”, explica Edson. A classe “E” reduziu pela metade, só de 2004 pra cá, a classe “D” caiu outros 20%, enquanto isso a classe “C” cresceu os mesmos 20%, a classe “B” cresceu admiráveis 30%, a classe “A” mais timidamente saltou de 2,7% para 3,2%, e as classes A, B e C prometem esmagar as classes “D” e “E” até 2014 crescendo em um ritmo menor, mas ainda muito intenso.

Lendo esses dados, parece complicar ainda mais a busca pelas respostas das perguntas que fizemos logo acima, mas, experimente comer um lanche em uma rede de fast-food em um horário de pouco movimento e depois pedir o mesmo lanche no horário de maior pico de movimento da rede. Certamente no horário de maior movimento a probabilidade de o atendente errar seu pedido e o seu lanche chegar quase que desmontado dentro da caixinha é muito maior que nos horários de movimento menores. “E sempre que nos vemos em situações de grande demanda procuramos soluções rápidas, que vão levar um tempo para atender com excelência tais demandas. Soluções rápidas, enquanto não nos atender com excelência vão pecar na qualidade do produto final, assim como um lanche rápido atenderá com menos eficiência as necessidades do nosso corpo do que uma boa refeição em um bom restaurante” exemplifica Edson.

Com este exemplo, Edson, coloca em questão os cursos tecnólogos e os cursos a distancia que, embora mostrem em avaliações como o ENADE que estão tão afiados quanto os tradicionais cursos de quatro ou cinco anos presenciais, parece que o mercado ainda não consegue ver nestes graduados, grande malícia para enfrentar a realidade do mercado.

“Pesquisando as vagas de treinee nas grandes empresas, pude verificar que as empresas esperam do candidato um pouco mais do que aquilo que aprenderam em seus cursos de graduação, tecnicamente nos pré-requisitos o que é mais comum é o inglês fluente e a disponibilidade de viajar pela empresa, mas, nos testes que eles oferecem em sites antes do primeiro contato pessoal, fica bem claro que exigem uma expertise que certamente não esta inclusa na grade de estudos dos candidatos recém-formados, até porque provavelmente os órgãos responsáveis por supervisionar a qualidade do ensino superior no Brasil só cobra este tipo de requisito a partir dos cursos de especialização lato sensu/stricto sensu”, explica Edson.

“Como último assunto base dos meus estudos esta uma rápida análise da lei PLC 280/2009 que prevê a contratação de docente para a educação básica apenas com nível superior completo, descartando o curso de magistério, o prazo para adaptação dos professores segundo a lei seria de seis anos, ou seja, professores correndo para tirar seus diplomas em quaisquer áreas para atender a nova lei”, salienta.

No geral, seja para dar aula, ou por um concurso público, ou mesmo para garantir um salário razoavelmente ‘bom’, aparentemente as pessoas estão aproveitando o momento que vive o mercado brasileiro para garantirem seus empregos, ou por meio de cargos públicos, lecionando ou mesmo prestando concurso para diversas áreas, aproveitando as oportunidades de crescimento em suas empresas para crescer financeiramente, sem pensar com a devida importância em seus planos de carreira, sem se preocuparem em se tornar profissionais sêniores nas áreas em que deram ínicio na graduação, parece ser suficiente ter apenas o diploma.

No geral, tudo o que compõe este texto deve ser encarado como um grande “brain storm”, analisando diferentes pontos que podem (ou não) estar ligado a esta grande dificuldade que os recém-formados encontram ao buscar seu espaço no mercado, a principal ideia deste texto não é ter encontrado a solução para o problema, mas, ter aberto o caminho para discussões que levem a solução de um problema que na verdade é uma grande oportunidade de crescimento profissional e cultural do nosso país.


Bob Felix

Produtor, Compositor e Intérprete
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